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Artigo - Uso de Bandagem Ocular Líquida em Oftalmologia Veterinária

14 de Novembro de 2011

Diogo Magno
Certificado de Estudos Superiores pela Escola Nacional de Veterinária de Toulouse.
Departamento de Oftalmologia Veterinária do Hospital Veterinário do Restelo.


A bandagem ocular líquida constituída por um ester de polietilenoglicol que forma um polímero dendrítico quando misturada com uma solução tampão e uma solução polimérica (OCUSEAL Hyperbranch Medical Technology). Mantém o seu estado fluido (antes de polimerizar) durante 30 segundos, permitindo a sua aplicação através de uma escova tipo “pincel” directamente sobre a superfície ocular. Este tipo de bandagem líquida tem vindo a ser cada vez mais utilizada em medicina humana. Em oftalmologia humana está indicada para conferir uma protecção temporária em situações pós-operatórias (por exemplo, resolução de pterígios, transplantes lamelares, incisões corneais em cirurgia de cataratas), pós-traumáticas (úlceras pouco profundas e não infectadas, queimaduras) ou em patologias não traumáticas. Com propriedades biocompatíveis, a bandagem líquida Ocuseal é completamente absorvida em 72 horas. Sendo um composto não imunogénico, apresenta óptima tolerância local. Mostrou-se também eficaz como barreira à penetração de bactérias potencialmente responsável por endoftalmites em incisões de córnea limpas.

CASO CLÍNICO

Surgiu para consulta de referência de oftalmologia um canídeo macho de 1 ano de idade, raça Bulldog, macho. Foi referido para oftalmologia devido a uma úlcera de grandes dimensões que se mostrou refractária ao tratamento convencional com antibiótico local, atropina e lágrimas artificiais.
O paciente apresentava ligeiro entropion medial inferior e superior bilateral, blefarite exuberante bilateral secundária a uma dermatite atópica dignosticada previamente pelo veterinário que referenciou. Apresentava blefarospasmo no olho direito, conjuntivite marcada e uma úlcera profunda na zona central ao nível da membrana de Descemet. Apresentava teste de Schirmer baixo em ambos os olhos (10 mm no olho esquerdo e 12 mm no olho direito). O exame com luz de fenda no olho direito mostrou uma câmara anterior bem formada, sem siniais de sinéquias de íris à zona ulcerada.

Tratamento:
Tratando-se de uma úlcera Descemética o tratamento deve ser cirúrgico. Ponderam-se varias opções cirúrgicas, tais como transplante lamelar corneal, transplante de membrana amniótica ou enxerto com submucosa intestinal de suíno. Dadas as limitações económicas apresentadas pelos donos, apresentou-se também como opção a colocação de bandagem líquida em conjunto com uma transposição da membrana nictitante à pálpebra superior, a manter-se pelo menos durante 15 dias. Pesou também para a decisão dos donos em optar por esta última solução a experiência prévia da utilização deste tratamento em situações similares e com ótimos resultados. Aconselhou-se acompanhamento semanal, no qual se realizou uma ecografia ocular para avaliar a integridade do globo ocular. Prescreveu-se (Metacam®; 0,2 mg/kg; SC), marbofloxacina (Marbocyl®; 2mg/kg PO) e topicamente tobramicina colírio cada 8 horas e atropocil 1% cada 8 horas.
 

Figura 1: Úlcera descemética num Bulldog inglês.
 

Figura 2: Após aplicação da bandagem líquida.
 

Figura 3: O mesmo paciente 1 mês depois , no dia em que removeu pontos que sustentavam a membrana nictitante.

Conclusão:
A aplicação da bandagem ocular líquida em oftalmologia veterinária poderá ser tão útil como em medicina humana. Para além da sua utilização no caso descrito no presente artigo, foi utilizada pelo autor em diversas situações tais como: úlceras de córnea profundas, flap em ilha de conjuntiva após colocação apenas dos pontos cardinais, protecção adicional em incisões corneais aquando de cirurgia de cataratas por facoemulsificação e da incisão após remoção intracapsular do cristalino (luxação anterior do cristalino) (ver imagens a seguir). A bandagem líquida mostrou-se francamente útil em pacientes com risco anestésico superior nos quais o tempo para cirurgia teria que ser limitado. Poderá ser também uma alternativa ao uso de colas de cianocrilato (muitas vezes intolerada pelos pacientes e cujo contacto com a câmara anterior poderá ser perigoso) e ao uso de lentes de contacto absorvíveis (de aplicação por vezes difícil e muitas vezes destacam-se da superfície ocular).
 

Figura 4: Úlcera estromal profunda num Pug. Aplicou-se bandagem líquida apenas com anestesia local. Esta úlcera cicatrizou completamente em 5 dias.
 
  
Figura 5: Úlcera prédescemética num Cavalier King Charles (à esquerda) e após aplicação de bandagem líquida (à direita). Esta úlcera resolveu-se completamente em 5 dias.
 
  
Figura 14: Imagem à esquerda com laceração de córnea exuberante. À direita após iridectomia, sutura directa e colocação de bandagem líquida.
 
  
Figura 6: Pequeno descemetocelo num Shi-Tzu (figura à esquerda); após aplicação da bandagem líquida.


Figura 7: Mesmo paciente que nas figures anteriores 15 dias depois.
 
  
Figura 9: Descemetocelo num boxer após aplicação da bandagem líquida.

Referências Bibiográficas:
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